26.3.10

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Urinol
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As melhores horas da nossa vida,
as mais contentes, passámo-las
num urinol qualquer, vendo correr o mijo
capaz e fluente numa certeza de louça
branca, amarela ou cinzenta.
Instantes de pouca opressão,
cumprindo embora um estúpido dever,
desses do corpo, sob o silêncio infecto de Deus
– que talvez fosse aquele puxador
de autoclismo que um dia me ficou na mão,
numa taberna discreta ao Poço dos Negros.
Guardei-o ainda alguns meses, mas de Deus
como um autoclismo, de tudo
acabamos por nos cansar. Até de poemas.
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São ruas velhas assim, onde paira
a suposição grosseira de um urinol
divino e sombrio, que nos fazem aceitar
esta voraz forma de extermínio. O nosso,
incandescente, num apogeu de melancólicas
retretes onde os insectos e bactérias do acaso
nos distraem o olhar
embaciado pelo abuso da lixívia.
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Uma lucidez pegajosa, toldando a idade
das mãos invariavelmente senis.
Como se bastassem, ou fossem mesmo
excessivas, certas baixas certezas de cão,
desastres menores. Sabendo-se de fonte
segura que o mijo pode ser um poema.
Um poema cansado do que antes foi vinho,
a suicidar-se agora – contente e tão triste –
no vazio evidente de uma louça
branca, amarela, sagrada.
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Pequenas alegrias e no entanto as maiores,
essas mesmas que bastarão,
que terão de bastar
no dia
em que formos
morrer.
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[Manuel de Freitas, in Infernos Artificiais, frenesi, 2001]

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