7.1.08

Luiz Pacheco: entrevista ao Jornal de Letras (2005)

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Nos últimos anos Luiz Pacheco deu inúmeras entrevistas que muito ajudaram a celebrizá-lo junto de uma geração mais nova, com pouco contacto com os seus livros (até porque são dificílimos de encontrar). Não esquecendo nunca que a verdadeira grandeza de Luiz Pacheco está nos seus maravilhosos textos, as entrevistas não deixam no entanto de ser interessantíssimas.
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Esta que aqui deixo foi publicada no Jornal de Letras de 31 de Agosto de 2005, a propósito do seu Diário Remendado (Dom Quixote) e o entrevistador foi Rodrigues da Silva:
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UM DIÁRIO INTEIRAMENTE LIVRE
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É um diário sem paralelo na literatura portuguesa porque não foi escrito para ser publicado. Aliás, boa parte dele perdeu-se ou anda perdida, nem Luiz Pacheco, o seu autor, sabe por onde. De qualquer modo, o Diário Remendado, que, com posfácio de João Pedro George, a Dom Quixote vai lançar na primeira semana de Setembro vai de 1 de Novembro de 1971 a 12 de Dezembro de 1975, vivia Pacheco em Massamá. Agora, com 80 anos feitos em Maio, vive num lar de idosos, onde o JL o foi encontrar. Para redescobrir o mesmo Pacheco de sempre. Um homem vertical, que, a despeito da velhice e da decadência física, não é habitado pela menor amargura, antes mantém inalterável o seu proverbial humor mordaz e a sua constante auto-ironia.
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Conheço-o vai para 50 anos, devo-lhe muito (como todos aqueles a quem o Pacheco, em finais de 50, «impingiu» edições quase clandestinas dos primeiros livros do Herberto e do Cesariny, autores em que, salvo ele, nenhum editor apostava), e o Luiz Pacheco está igual. Não, não está. Fez em Maio 80 anos, já não edita livros, já não isto, já não aquilo, nem já bebe, o Pacheco. Mas é o mesmo. O mesmo tipo que, aos 20 anos, optou por um modo de vida e assumiu-o, nunca disso se queixando. Se a liberdade tem como contraponto a responsabilidade, Luiz Pacheco é disso um paradigma. Porque jamais lhe ouvi um lamento. E, sempre mordaz, jamais também o vi invejar fosse quem fosse. Uma tarde desta reencontrei-o num lar de idosos, ali ao Príncipe Real. Ouve mal, vê muito pouco, já não consegue ler, nem escrever, tão-pouco distingue sequer a comida no prato; usa fraldas, habita um quarto despido de quase tudo, está ligado ao mundo por um telemóvel e pela rádio, mas fartámo-nos de rir os dois com as piadas dele, porque o Pacheco continua possuído de um humor e de uma ironia absolutamente invejáveis. Muito do que me disse não é possível publicar-se numa entrevista, mas o que a seguir se poderá ler dá o tom. O tom de um homem que soube aceitar a velhice e (por que não dizê-lo?) a decadência física com essa imensa nobreza que se chama sabedoria. Por isso, quando lhe perguntei pela morte, o Pacheco disse que sim, advertindo, porém: «Não quero que ela me apanhe a dormir. Quero vê-la chegar».
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Jornal de Letras – Como é que te sentes aos 80 anos, tu que dizias que não passavas dos 40, dos 50, dos 60 e por aí fora?
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Luiz Pacheco – Olha, passei.
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Como é que passas o tempo aqui?
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Aqui!? Tu já foste ali à sala de espera? Nem vás. Aqui não há pessoas. Há moribundos a imitar pessoas. Um gajo não vem para aqui para se curar ou melhorar. Vem… Eu farto-me de rir quando me falam de qualidade de vida. De vida? Aqui! Farto-me de rir. Mas não estou mal. No Natal passado vieram aí uns tipos visitar-me e deram-me um leitor de CD e um rádio. É com isso que me entretenho. E com o telemóvel, que é uma boa coisa. Televisão não vejo, ouço, para não me deixar isolar demasiado.
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Ainda lês?
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Não. Cada dia vejo pior. Pedi-te para me trazeres uns JL mas só leio os títulos. E também ouço mal. Há dias, a miúda da cozinha bateu-me à porta a dizer que o almoço era arroz de pombo. Pensei: «De pombo! Devem ter morto os pombos todos do jardim». Afinal não era arroz de pombo, era arroz de polvo, porra. Devo ter ouvido mal, mas só percebi quando meti o garfo à boca. É que também já não vejo o que está no prato. Um gajo vai perdendo isto, depois aquilo… Foder não é indispensável. Deixar de ver e de ouvir é que é pior, mas cá me aguento. O instinto de sobrevivência é muito forte.
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Porque só agora sai este Diário Remendado?
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Isso é uma coisa maluca. Sabes, eu não tenho dinheiro para estar aqui. Isto custa mil euros por mês, fora os remédios e as fraldas. E as gorjetas às miúdas, porque sem o apoio delas é difícil. Recebo 120 contos [600 euros] do Ministério da Cultura, mais uns 40 ou 50 contos [200 ou 250 euros] da reforma, mais uns 60 euros da SPA. Depois há umas vendas de livros e outras larachas. Aquela coisa que passou na televisão deu-me 2 mil euros, o Vasco Graça Moura publicou a Comunidade pagou-me 500 euros, o livro do Independente [Figuras, Figurantes e Figurões] também me deu 2 mil – acho eu. O António Mega Ferreira vai publicar não sei o quê meu e também me vai pagar. Olha: é à justa. À justa porque eu não vou à rua. Há dois anos que não saio daqui e há dias em que nem saio do quarto. E aqui não há onde se gaste dinheiro. Na rua é diferente: há sempre um livro, um doce, uma merda qualquer, e lá se vai a massa.
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A família vem-te visitar?
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A família é a família, sabes como é… Os filhos têm a sua vida. O Paulo está em Palmela, o do Montijo pouco cá vem, o Luís José mora em Queluz de Baixo, a minha filha Maria Luísa agora ficou viúva, a Adelina anda por aí na Europa, a Geninha está no Ribatejo e tem um negócio de bolos. E o de França está preso.
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Preso?
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Matou um gajo, um empregado dele, também português. Discussão, estava ali uma faca à mão… Estás a ver. Felizmente foi imigrante contra imigrante. Se tivesse matado um francês estava fodido. Assim safou-se: apanhou 12 anos, sai ao fim de 6, está satisfeitíssimo, estuda imenso na prisão, computadores. É um gajo das Arábias.
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E netos, quantos tens?
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Sei lá, ando lá agora a controlar a gravidez das meninas. Devem ser para aí uma dúzia. A Geninha tem uma filha muito bonita.
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Voltemos ao Diário Remendado. Edita-lo agora…
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Por dinheiro, claro. As pessoas nunca falam em dinheiro, mas é.
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O Diário vai de 1971 a 1975, mas dizes que é a terceira série. Quais são as duas primeiras?
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Eu digo que é a terceira série!? Eu não reli nada do que vai sair. O Diário começou a ser feito a 1 de Janeiro de 1970, no Hospital de Santa Marta. Estava lá internado com uma merda qualquer do coração, depois de uma grande bebedeira que apanhei com o Jorginho, a Rata dos Cabarés; tu não te lembras dele? Apareceram-me lá a Lia Gama, o Lauro António e o Vítor Silva Tavares com 500 exemplares da 1ª edição d’O Libertino [Passeia por Braga, a Idolátrica, o seu Esplendor] para eu assinar e numerar, mas levaram-me também um daqueles cadernos pautados, muito grandes, da [Papelaria] Emílio Braga. Foi nesse caderno que comecei a escrever o Diário. Depois, quando saí, continuei em Massamá, para onde, nesse ano, em Setembro, fui morar sozinho.
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Na Rua das Camélias…
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… Número 5, rés-do-chão direito.
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Um dia destes a Junta de Freguesia manda pôr lá uma lápide evocativa da tua passagem, de cinco anos, por Massamá.
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Tas doido. Aquilo era um cóio de vagabundos. Eu morava lá sozinho mas entrava e saía gente todos os dias, malucos, bêbados, marginais. Só lá não foi parar o Beringela e a Mana Gorda, o resto caiu lá tudo: a Elsa, a Odete Calmeirona, a Miss Cacilhas, o Cabeça de Vaca, o Garcia Pereira, o Nhonhó, o Chico Bres, que um dia me pediu para lá dormir uma noite e ficou oito meses, o Sampaio, um rapaz que tinha um restaurante no Parque Mayer e foi preso por vender cocaína (não era cocaína, era farinha), sei lá mais quem. Aquela experiência não se repete. Repara: havia aquela maluqueira toda, mas em cinco anos traduzi livros infantis para a Verbo, escrevi os Exercícios de Estilo, Literatura Comestível e Pacheco versus Cesariny.
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Apesar das bebedeiras…
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Não estava sempre bêbado. Também trabalhava.
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Não bebes desde quando?
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Sei lá. Aqui (estou cá há cinco anos) ao princípio ainda bebia, uma taça de vinho tinto ali na esplanada do jardim. Depois deixei. Em Massamá bebia muito, depois tinha de tomar injecções na veia, uma para os rins, outra com um choque vitamínico. Era bom, fazia bem. Mas a recuperação melhor foi em Celas (Coimbra), já depois da do Hospital Júlio de Matos (no Centro António Flores), onde me foste visitar.
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Todo o Diário é feito em Massamá.
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Sim. Há umas coisas que podem ter sido em Campo de Ourique, mas poucas. Isto deveria ter levado umas notas a explicar quem era este e aquele, mas dava muito trabalho e assim nunca mais saía.
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Mas paraste o Diário em 1975?
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Não. Fui escrevendo sempre até 1999. Agora é que já não vejo.
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Mas onde é que estão esses cadernos de 1975 a 1999?
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Sei lá. É difícil recuperá-los. Uns dei-os, outros vendi-os, outros perdi-os em tabernas, em pensões, o Paulo [o filho] ainda lá tem muita coisa.
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Quem te propôs esta edição?
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Eu já vendi este Diário duas vezes. Esta é a terceira. Uma vez, estava aflito de dinheiro, fui à Moraes, do Nelson de Matos [então director literário da editora], e disse-lhe «Eh pá, não queres publicar isto?» O gajo abriu aquilo ao calhas e deu logo com uma página em que eu falava mal dele, de dois romances muito maus que tinha escrito, e eu chamava-lhe «pajem do Urbano Tavares Rodrigues». Claro que o Nelson disse que não («vai-te embora, meu filho da puta»). Lá se foi a edição. Isto passou-se aí por 1970 ou 1971.
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Não é possível: este Diário começa a 1 de Novembro de 1971.
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Mas eu escrevia muito. O I volume é de 1970 e parte de 1971 e tem uma figura feminina, a Teresa; deves tê-la conhecido, era uma miúda muito bonita. Não te lembras daquela cena com ela no Bairro das Colónias, quando o pai a pôs na rua, toda nua, e a mãe lhe atirou um lençol pela janela.
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Mas essa parte que levaste à Moraes perdeu-se?
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Uma parte deve ter o Paulo, a outra não sei. Depois há um II volume, esse em que falo muito da Teresa. Um dia ela foi a Massamá e eu dei-lho. Falava dela, dei-lho. Ela levou aquilo, passaram-se anos e anos e há meses pedi-lho. Ela disse-me que tinha ardido, num incêndio em casa da mãe. Foi-se. Há pessoas que têm uns cadernos, mas não mos dão.
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E essa parte que vai sair estava onde?
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Vamos primeiro às vendas. Em 1972, por 2 contos, vendi isto e mais uma tradução ao Pedro Antas. O Antas não editou nada e levou tudo para Paredes de Coura. Depois apareceu o Sérgio Guimarães, que me dava umas coroas de vez em quando (500 paus, um conto, assim). Até que um dia me disse: «Essa coisa do Diário é uma grande aldrabice». Respondi-lhe: «Então empresta-me aí dinheiro para eu ir ao Porto a ver se eu não te trago o Diário». Ele emprestou-me mais 500 paus, fui à Foz do Douro onde morava o Antas, ele foi a Paredes de Coura buscar o Diário e eu recambiei-o para o Sérgio. Aquilo ficou nas mãos dele uma série de anos, ele tinha uma editora de coisas pornográficas, mandou bater tudo à maquina mas nunca publicou nada, até que a editora faliu e depois o Sérgio morreu. Consegui reaver a tralha, de modo que fiquei com o original e com a cópia à máquina, que tive de emendar, porque a miúda que dactilografou não percebia a minha letra e engatou aquela merda. Já com aquilo emendado fui à Rolim levar a porra do Diário. O gajo da Rolim deixou-me desgostoso. Disse-me: «Isto requer muito trabalho». Ora um diário não requer trabalho, não é nenhum romance. Voltei com a papelada para casa e desisti da publicação, acabando por dar tudo a uma senhora de Coimbra e não pensei mais no Diário. Só que, já eu estava aqui no lar, surgiu aquela ministra das Finanças, a Manuela Ferreira Leite, a cortar nas despesas todas, e eu pensei «Ai que lá se vão os meus 120 contos do Ministério da Cultura…» Foi então que telefonei para Coimbra e a senhora devolveu-me o Diário. Mas era um calhamaço enorme. Peguei naquilo, e, como já não via para cortar parágrafos, períodos e frases, cortei partes inteiras até reduzi tudo para metade. O Paulo levou à Dom Quixote, que disse que sim e acho que até meteu umas coisas que eu tinha cortado. Tanto faz. Os gajos vão-me pagar 300 euros por mês, é porreiro.
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Tu dizes no Diário uma coisa muito bonita. Chamas-te «um escriba de circunstância» e afirmas-te «um tipo que queria ser escritor mas antes queria ser um homem livre».
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Tu escreveste isto sobre mim?
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Não fui eu, Luiz. Foste tu, no dia 13 de Fevereiro de 1974. E acho que é a tua auto-definição.
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E, é, sim senhor, mas já não me lembrava de ter escrito isso. Este Diário é inteiramente livre, não tem nada a ver com os do Torga ou do Vergílio Ferreira, que escreviam para ser publicados. Isto é diferente: uma espécie de reflexão, de desabafo, de confidência; coisas para mim.
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Como é que aparece o posfácio?
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Ai há um posfácio!? Não sabia.
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É de João Pedro George.
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Esse gajo é uma espécie de índio chupista. Apareceu-me aqui um dia para fazer a minha biografia. Dei-lhe uma porrada de nomes para ele procurar, gravou, gravou, gravou, também coisas minhas, até que eu lhe disse que depois de estar aqui há cinco anos, já não tenho biografia possível. De modo que ele agora quer rentabilizar o esforço que teve a gravar e um espólio importante que tem sobre mim, porque há quem lhe tenha dado muita coisa, cartas, sei lá. O gajo sabe mais de mim do que eu. Mas isso do posfácio também não interessa: a malta lê meia dúzia de páginas do Diário e larga, ninguém chega ao posfácio.
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Ele diz que é «um dos mais autênticos diários da literatura autobiográfica portuguesa»:
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Ele diz isso!?
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Não obstante, considera-o narcisista…
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É natural. Um gajo se está a escrever sobre o que fez ou vai fazer neste dia assim-assim, é, de facto, narcisista. Queres coisas mais narcísicas que os diários do Torga ou do Vergílio Ferreira? O meu deve ter muita parvoíce. Mas ao fim de 30 anos, o Diário já não me diz nada.
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A propósito, no outro dia na televisão disseste que te estavas nas tintas para os jovens de hoje.
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Disse «puta que os pariu».
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É blague. Falas dos teus filhos, de uma neta muito bonita, para que é que dizes essas coisas?
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A primeira vez que disse isso foi para a revista Ler. O gajo massacrou-me horas com a entrevista, eu já estava cansado, às tantas fiz-lhe um manguito, mas ele, no corredor, ainda me veio com essa do futuro. Puta que os pariu.
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Não acredito que penses isso. Aposto que no futuro ainda vais ser lido. Achas que sim?
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Não faço ideia. Os livros caem como se fosse num poço. Há 50 anos que eu tenho essa experiência. Que livros meus venceram o bloqueio?
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Uma série deles. A Comunidade tem 11 edições e deu origem a um espectáculo teatral. O Libertino tem seis edições, os Exercícios de Estilo três, mas há ainda a Crítica de Circunstância e muitos outros textos teus. E, quase todos, para além do mais, são um testemunho fantástico sobre uma época.
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Há coisas que furam, mas lentamente. Daqui a 50 anos pode ser que se fale é de mim como um doido desta época. Mas não estou preocupado com isso.
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Eu sei, mas ficas para a História como um marginal, um escritor ou um editor?
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A edição [editora Contraponto, fundada por Luiz Pacheco em 1950] foi o que fiz de mais positivo. Havia uma barreira difícil de ultrapassar, eu lutei contra essa barreira e venci-a. Era a PIDE, a Censura, toda essa merda, mas também havia os neo-realistas que ocupavam tudo (eu fundei uma editora porque não tinha outra para onde ir). Eles ocupavam tudo e caluniavam imenso. Essa malta não me escapa.
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Não te escapa, mas, como muitos deles, foste parar ao PCP.
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Pois foi. Olha: soube ontem que o meu secretário-geral vai ser candidato a Presidente da República.
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Vais votar?
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Não posso. Perdi o cartão de eleitor quando [nas últimas eleições presidenciais] votei no António Abreu. Estava no Montijo e tinha que ir votar a Palmela, onde estava recenseado. Perguntei quanto era de táxi, pediram-me três ou quatro contos, eu achei muito e não me apeteceu. Mas no lar do Montijo estava uma gaja horrorosa que tinha sido cozinheira do Champalimaud, falei-lhe nisso, ela disse-me «era só o que me faltava: gastar três ou quatro contos para votar». Aí irritei-me e fui mesmo de táxi votar. Mas, na barafunda, perdi lá a porra do cartão. Quando vim para aqui fui à Junta de Freguesia mas ainda estou à espera da 2ª via do cartão para poder votar.
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Em quem?
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No Mário Soares.
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Teu antigo colega da Faculdade de Letras.
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Sim senhor. O gajo aguenta. Os pais e os avós dele chegaram aos 100 anos.
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Tu deves-lhe uns favores, sempre te deu umas massas. Cravaste-lhe 20 paus quando um dia ele ia a sair da PIDE.
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Isso é mentira. O que é verdade é que – era ele Presidente da República – me deu 650 contos. Olha que é muito dinheiro! Deu-me de uma vez 200 contos em cheque, depois 250 contos em 25 notas de 10 contos e por fim mais 200 contos.
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E o Jorge Sampaio?
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Esse nem cheiro. Pior foi o Eanes. Como o David Mourão-Ferreira tinha conseguido um subsídio para o Raul de Carvalho, o Alçada Baptista falou-lhe de mim. E o Eanes respondeu-lhe: «Para quê? Para ir gastar na taberna?». O Soares não perguntou onde é que eu ia gastar a massa.
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Soares é fixe?
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Então não é? Vou votar nele.
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E nas autárquicas?
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Nesses macacos de Lisboa? Sei lá. Espera: vou votar no Ruben de Carvalho. Um gajo aqui perde um bocado as motivações.
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Mas não estás com mau aspecto.
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Eu nunca esperei acabar nisto.
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Nisto, como?
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Eh pá: com criadas, auxiliares, assistência médica. Fazem-me a cama, limpam-me o quarto.
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Não te sentes sozinho?
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Não. Tenho uma memória muito razoável. Já não posso ler, já não posso escrever, de modo que repiso o que vivi. Depois há malta que vem cá e me conta umas coisas de que eu já não me lembrava.
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Não escreves, mas podias ditar para um gravador.
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Eu cheguei a ter um Diário Falado, gravado para as cassetes.
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E onde é que estão essas cassetes?
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Algumas deve-as ter o Paulo. Outras perdi-as nas pensões, nos sanatórios, por aí… Um diário, escrito ou falado, torna-se um vício, uma espécie de dependência. Mas depois também passa.
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Ouve lá: quais os escritores portugueses actuais que pensas que serão lidos daqui a 50 anos?
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Os que vierem nos programas escolares. Achas que os putos agora lêem A Sibila? É uma maravilha aquele livro, mas que miúdos urbanos de hoje é que vão ler aquilo? O Pessoa perdura, de certeza. Não sei se o Saramago e o António Lobo Antunes têm tomates para continuar. Não faço ideia do Herberto. Esse é diferente, é poesia, mas a prosa dele também é muito boa. Mas quem é que lê hoje Os Passos em Volta?
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Muita gente, e jovem.
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Ai é!? O Herberto é muito complexo. Não será o nosso maior poeta, mas é muito bom.
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Pensas na morte?
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Penso, mas não quero que ela me apanhe a dormir. Quero vê-la chegar.

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